#2: Tarot,
Imaginação, Jesus e Sexta 13
Antes de ser CLT, eu jogava tarot. Vivi da renda dos jogos por quase cinco anos; fazia uma coisa e outra como extra, mas a fonte principal vinha dali.
Era um tempo em que o tarot ainda não estava tão popularizado e "tiktokerizado", e havia poucos canais no YouTube naquele estilo “se concentre, escolha uma carta, veja o resultado”.
Atendi muita gente, tanto presencialmente quanto online, e sempre me abri muito ao processo, o que me deixava bem cansada no final. Não conseguia cobrar de forma justa porque, na minha cabeça, não podia cobrar caro por algo assim. Hoje vejo que, na verdade, era algo que não tinha preço, e é triste que num mundo de coisificação precisemos precificar tudo.
Quando eu jogava, era diferente da cartomante de Macabéa. Nunca prometi a verdade ou 100% de acerto, porque, na minha visão (aqui saliento: minha visão, eu, karina), tarot é muito mais do que isso. Sempre senti e vi as cartas como formas de organizar imageticamente alguns sentimentos e angústias, como se colocassem 78 palavras ali para criar um texto que pudesse trazer um pouco de lucidez. Como se a alma desenhasse para o nosso lado racional entender algumas coisas que só pensar sobre não rola.

Algumas consulentes não gostavam da abordagem, mas a maior parte gostava e se abria, então fazíamos trocas especiais. Uma das mágicas do tarot é contar histórias que ajudam a encontrar caminhos menos óbvios, ou que não nos pareciam óbvios. Às vezes, olhamos tanto para uma coisa que ela acaba ficando invisível, e precisamos de outra perspectiva — e o tarot ajuda nisso.
Num mundo hostil, criar novas formas de ver a realidade é necessário, e o tarot sempre me ajudou muito nisso, principalmente por ser um elemento que dialoga diretamente com componentes imaginativos e oníricos.
E, aos poucos, as próprias cartas começam a falar com você, a aparecer. Tive um sonho há muitos anos em que uma serpente gigante, quase um dragão, circundava a montanha em que eu estava. Ela aproximava seu rosto de mim, e entre seus olhos havia um Ás de Copas, o que fez total sentido com o momento que eu vivia.
As coisas não são fáceis. Temos que bater ponto, lidar com métricas, respirar um ar tóxico e nojento, cuidar, pagar as contas, tomar remédios, e tudo isso nos engole. Criar rituais que quebram o roteiro, na minha visão, é uma forma de desengasgar um pouco do capitalismo. E o tarot, como elemento imaginativo, criativo e artístico, traz muito disso.
Quando estou precisando, acendo minha vela, abro minhas cartas. Não tenho jogado muito para os outros, embora, às vezes, eu dê a louca e tire para algumas pessoas, mas só para as íntimas. O tarot também tem o seu lado ruim e pode ser usado para ferrar com a cabeça, mas já recebemos tanta notícia ruim esta semana que ficarei apenas com o lado suavecito.
Tenho severas suspeitas de que a imaginação é o que pode nos “tirar dessa”. Não com verdades ou respostas exatas, mas talvez nos aproximando mais daquilo que é sutil e profundo, onde as placas tectônicas dentro da gente se movem lentamente.
Hoje é sexta-feira 13, coincidentemente. Dentre as várias justificativas para o azar nesse número envolvendo a Bíblia, também temos a sua parte no tarot: a décima terceira carta é A Morte, e acaba sendo uma das cartas mais temidas do baralho. Para fechar, um outro sonho que tive envolvendo essa carta: Jesus era super gay e estava jogando para mim, e quando saiu a carta da Morte, ele disse:
— Amada, não preciso te explicar isso, né? — E fez carão, revirando os olhos.
Não, Jesus, não precisa. Sua história mostra bem que, de vez em quando, é preciso morrer pra viver de novo.
Essa foi o segundo texto aqui no 2 por 30, a newsletter mais barata da freguesia! Queria agradecer a vocês todas que se inscreveram, fui olhar hoje e tomei um susto: 24 inscritas! Muito obrigada!
Com carinho,
Karina


O tarot contando histórias, ajudando nos caminhos... que maneira sua visão, nunca pensei nele assim. Que bom que existem mulheres inteligentes e sensíveis escrevendo o que posso ler. Obrigada pela sua escrita.
Que delícia de texto Karina! A relação que tenho com Tarot é bem parecida com essa que você se propõe! A de dar ferramentas para nomearmos nosso caos e nos nortear. Assim como a astrologia também… Não penso como algo tão simplório quanto sim ou não, ou faça isso ou não faça isso… Ferramentas pra nos auxiliar a lidar com o nosso real, pois sim, somos subjetivas e precisamos dessa subjetividade no nosso quotidiano (que o capitalismo e a institucionalização teimam em matar dentro de nós)… Adorei ler você! ❤️